O cachorro

Nestes dias de falta de combustível e desabastecimento, melhor é falar de filme que possa ser visto em casa. E assim aproveito a ocasião para relembrar um filme argentino que tem como tema a crise econômica daquele país, ocorrida no início dos anos 2000, semelhante a que vivemos.

Na primeira metade desta década, a Argentina viveu grave crise política e econômica. O ponto alto ocorreu em 2001, com saques praticados pela população em Buenos Aires e a renúncia do presidente Fernando de La Rua.

Entretanto, na contramão das dificuldades econômicas, o cinema argentino produziu muito. E realizou filmes tendo como tema a crise econômica e política vivida pelo país. A realidade, o contexto social, a violência e os saques eram pratos feitos para serem transpostos para a tela grande. O filme representativo deste período é Memória do Saqueio, filmado em 2004, dirigido por Fernando Solanas.

Mas hoje vou falar de um outro filme deste período, “O cachorro”, realizado também em 2004 e dirigido por Carlos Sorin. A crise econômica aparece como tema de fundo, pois o que importa é a trama originalíssima, contada com extremo humor. O protagonista, Juan Villegas, tem 56 anos e depois de 20 anos trabalhando num posto de gasolina perde o emprego. Mora numa pequena casa na Patagônia com a filha. Desempregado, com mais de 50 anos e vivendo num país que atravessa crise econômica, Juan tinha tudo para viver período difícil.

Mas a sorte muda, vivendo de bicos, ao realizar um serviço recebe como pagamento um cachorro da raça Dog Andino, grande e bonito, que tem nome hilário: Bombom Le Chien. A partir daí, as aventuras que serão vividas pelos dois, representam metáforas cômicas da realidade social argentina.

O cachorro logo chama a atenção de treinador para exposições que o leva a competir pela primeira vez em Baia Blanca. A cena do desfile de Juan com Bombom Le Chein é impagável. Um desempregado desfilando com seu cão de raça no meio dos ricos e de seus cães produzidos. 

Bombom Le Chien, acaba sendo premiado e uma carreira de reprodutor surge promissora. A vida de Juan e seu cachorro, a despeito da realidade social, parece incrivelmente boa. O problema é que Bombom, apesar de receber várias ofertas para cruzar, não sabe, ou não gosta do ofício.

A carreira de reprodutor de Bombom se encerra antes de iniciar. Juan regressa para casa, dirigindo sua velha camionete com seu cachorro ao lado. O futuro reservado para Juan é prosseguir na luta pela sobrevivência e para Bombom a vida monótona do pátio.

Mas como o mundo dá voltas, Bombom desaparece. Pouco depois, Juan encontra-o num lugar afastado, namorando como cachorro grande. A esperança renasce no rosto de Juan. Afinal, sempre soube que não devia confiar nos governantes, mas sim na fidelidade canina de Bombom Le Chien. 

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