Todo dia sai na porta do seu apartamento com a intenção de ser mais do que já é, sem saber como, por onde começar ou o que fazer. Desejando viver algo além do convencional, algo que fuja do esperado, e que seja realmente relevante. Não pode acreditar que a vida seja só isso. Fazer algo que não se quer em razão de algo que não se sabe o que é, pensa na falta de paixão dos dias, das pessoas pela vida e da vida pelas pessoas.
Nunca está plenamente satisfeita com a nada, com as possibilidades que existem, nem com a monotonia dos assuntos cotidianos. A política lhe parece gasta, o amor lhe parece gasto, as amizades lhe parecem chatas. No entanto, sabe que nada é tão belo e divino quanto viver.
E permanece nesse estado ambíguo, entre o tédio e a inspiração.
No dia-a-dia, já não sabe se bebe chá ou café, se senta ou deita. Aceita a condição natural em que todos estamos, de cansaço e exaustão, mas no fundo, prefere olhar pelo ponto de vista da beleza da trivialidade desses momentos inevitáveis de todos os dias.
Observa uma borboleta pousar na janela, o gato ronronar e se espreguiçar na cama, o aroma do café passando pela manhã. Enfim, tenta tirar disso tudo algum potencial divino, espiritual, inspirador. Pergunta-se sobre a sua própria loucura, questiona sua sanidade, não sabe se tudo isso existe ou se ela inventou. Às vezes, não sabe diferenciar um dia bom de um dia ruim, e surpreende-se com o fato de que se parecem todos iguais.
Por fim, entra em sua caverna mágica e lilás, de pensamentos e contos românticos e impossíveis. Sabe que essa é a salvação, o fingimento, uma negação inconsciente das notícias cotidianas, um esconderijo de estrelas no meio do caos.
Não se contenta com a realidade, jamais se contentará. Vive assim, escrevendo nas paredes cinzas do mundo, algumas palavras que podem trazer de volta o amor. Nada disso é em vão, pensa consigo mesma, pois quando se for todos lembrarão do brilho que deixou.
Com amor, Alice.





