É motor fundido essa ideia do Sindicato dos Trabalhadores de Transportes Rodoviários Intermunicipais de Turismo e de Fretamento da Região Metropolitana (Sindimetropolitano) de paralisar de surpresa ônibus em Viamão, Gravataí, Cachoeirinha, Canoas, Alvorada, Guaíba, Eldorado do Sul e Camaquã.
Cerca de 100 mil usuários restaram – desinformados – nas paradas de ônibus na manhã desta segunda-feira, 16 de dezembro.
Reputo, é jogar contra o sindicalismo e o consagrado direito a greve.
Há outras formas de pressão no ‘patrão’ – e, talvez, a pior seja perder a simpatia do chefe maior, a população, já que o serviço é uma concessão pública.
Antes da análise, vamos às informações.
Os ônibus que atendem à Região Metropolitana só voltaram a circular a partir das 10h, após o caos do início da manhã.
– O pessoal saiu da frente das garagens – garantiu ao Correio do Povo o presidente do Sindimetropolitano, Alessandro Araújo.
A decisão foi tomada após confirmação de que foi antecipada de quinta para às 17h de hoje uma reunião de mediação no Tribunal Regional do Trabalho da 4ª Região (TRT-4), em Porto Alegre, sob condução do vice-presidente, desembargador Alexandre Corrêa da Cruz, para tratar da questão salarial.
Conforme os sindicalistas, o motivo da paralisação é o não cumprimento de acordo firmado há oito meses, entre concessionárias e sindicato, que previa pagamento de diferença salarial de R$ 1,2 mil para cerca de 4 mil rodoviários.
– Como veio a enchente, a gente foi negociando e ‘empurrando com a barriga’. Isso chegou a ser acertado três vezes e a última data era a de hoje, dia 16 – disse, também ao CP, o sindicalista Agenor da Luz, alegando que, em reunião na última sexta-feira, o sindicato foi informado que as empresas não conseguiram pagar a diferença salarial e nem sabiam se poderiam quitar o 13º salário.
Analiso.
Entendo um erro uma paralisação sem aviso prévio. São trabalhadores, a grande maioria mais pobres, aqueles que ainda utilizam o transporte coletivo.
Conversei com motoristas de aplicativo que, com as paradas lotadas, operaram com tarifas três vezes mais altas durante as três horas de greve.
É improvável que a paralisação, com aviso aos usuários, teria provocado impacto diferente em relação a antecipar a reunião de mediação.
Mais produtivo seria o Sindimetropolitano sensibilizar a população informando que a categoria também tem tido a carne cortada na interminável crise do transporte coletivo, que começou com a uberização, contagiou-se com a pandemia e agora acabou afogada pela enchente.
Mais que a carne, cabeças cortadas, com a gradual extinção dos cobradores de ônibus.
Por que o Sindimetropolitano não comunica à população que as empresas têm recebido socorro em dinheiro público dos governos federal, estadual e também de prefeituras?
Se o dinheiro não chega, é outra parada do debate.
Mais de R$ 100 milhões já foram repassados às concessionárias para equilibrar os contratos e a operação do sistema no pós-pandemia.
No fim de novembro, a Assembleia Legislativa aprovou novo auxílio emergencial às concessionárias devido à calamidade pública das enchentes de 2024.
Não seria melhor, inclusive pensando no futuro, já que não se conhece itinerário para a crise no sistema chegar ao fim, o Sindimetropolitano buscar um debate com a sociedade sobre o modelo de transporte e os subsídios – até para justificar mais dinheiro público, caso necessário?
Ao fim, é preciso que os sindicalistas entendam o momento, que não é nada favorável.
Parece-me um erro estratégico, e mais um golpe no já difamado sindicalismo, fazer uma paralisação sem aviso.
A não ser que o Sindimetropolitano não esteja nem aí para o trabalhador que usa o transporte coletivo.


