Representante da empresa que estuda implantar uma Central de Gerenciamento Ambiental em Viamão apresentou detalhes técnicos, mas não soube informar valor do investimento, número de empregos que podem ser gerados e nem impacto nos cofres da administração municipal

Alex Stray (em pé) apresentou projeto da Central de Gerenciamento Ambiental na Câmara de Vereadores
O que era para ser uma reunião entre a Empresa Brasileira de Meio Ambiente (EBMA) e os vereadores de Viamão, na tarde de terça-feira, 17 de dezembro, se transformou em uma audiência pública informal que lotou o plenário Tapir Rocha, da Câmara de Vereadores de Viamão, de pessoas favoráveis (ou apenas simpatizantes) e contrárias à instalação, no município, da Central de Gerenciamento Ambiental Figueiras (CGAF), um aterro sanitário popularmente chamado de lixão. Alex Strey, contratado pela EBMA para fazer a divulgação e defesa do projeto, fez a apresentação da Central e foi diversas vezes interrompido pelo público, com gritos de “não ao lixão”.
Enquanto o grupo “mais à favor” da instalação da CGAF ocupou todo o espaço das cadeiras, os integrantes do movimento “Não ao Lixão” ficaram em pé, junto ao plenário, portando faixas, cartazes e até um um boneco gigante. O grupo teve representantes das comunidades indígenas Mbyá, ativistas ambientais e da comunidade. Menos da metade dos 21 vereadores do Legislativo viamonense assistiram ao detalhamento do projeto, feito por Strey ao longo de aproximadamente uma hora, sendo pelo menos três deles contrários à instalação: Alex Boscaini e Fátima Maria (PT), e Eda Giendruczak (PDT).

Plenário ficou lotado por pessoas dos dois grupos, simpatizantes ao aterro sanitário e contrários ao projeto
À reportagem do Diário de Viamão, o representante da empresa contou que o estágio atual do processo de instalação, depois da definição da área onde acontecerá a implantação, é de estudos ambientais com diagnóstico da vegetação, do solo, clima e das pessoas “inclusive da opinião que elas têm a respeito deste tipo de empreendimento”. A fase mais demorada dos futuros passos, de acordo com Strey, é a análise do impacto eventual junto à comunidade indígena e arqueológica do terreno e seu entorno.
“Deve acontecer uma primeira reunião no começo do ano (de 2025) e os estudos têm objetivo de verificar se vai ser preciso fazer algum programa de proteção tanto à comunidade Mbyá quanto às questões arqueológicas”, explicou. Strey não informou qual o total da área da Fazenda Montes Verdes, propriedade da Bianchini S/A Indústria, Comércio e Agricultura, apontada como local de implantação da Central de Gerenciamento Ambiental, o espaço a ser ocupado pelo aterro propriamente dito, nem o número de empregos a serem gerados ou o impacto do empreendimento para os cofres municipais.
Segundo ele, entretanto, o local deve receber cerca de 4 mil toneladas de detritos, por mês, somente de Viamão. “É um aterro sanitário que vai atender especificamente a cidade e meio rural de Viamão”, enfatizou. Entre os benefícios que vislumbra, Alex Strey apontou a redução de custos com o fim do transporte do lixo para o município de Minas do Leão, que monta cerca de R$ 1 milhão mensal, conforme disse. “Outra coisa que a enchente (de maio) nos mostrou é o bloqueio em todas as estradas no entorno da Região Metropolitana de Porto Alegre. E daí, como é que faz, como que vai se levar esse lixo para fora do município?”, questiona.
“Se a gente tiver uma solução local, passa a ter mais gerência sobre dificuldades e custos, o que é muito importante. Tudo que é mais barato e tem a garantia de ser um serviço qualificado, representa grande vantagem para o município. Outros benefícios vão ser o reforço da rede elétrica, o que é bom para a população daquela região, o melhoramento das estradas de acesso e de toda a infraestrutura das imediações”, afirmou. Sobre quem vai bancar o custo destas melhorias, a empresa ou Prefeitura, “são negociações futuras que determinarão. Por que isso depende dos impactos que vão ser apontados em estudos que ainda serão realizados”.

Manifestantes estenderam faixas em frente à Câmara de Vereadores de Viamão durante reunião na tarde de terça, dia 17
‘Não ao Lixão’
“É um movimento absolutamente natural. Sempre que se vai instalar um equipamento como esse, existe uma manifestação neste sentido, muito pelo desconhecimento do projeto e do impacto econômico, ambiental e social. Esse desconhecimento faz com que as pessoas façam ilações suponham coisas que não condizem com a realidade e o que apontam análises e estudos que nos dão dados consistentes que vêm sendo coletados há pelo menos cinco anos e estão disponíveis para a Fepam (Fundação Estadual de Proteção Ambiental) e o Ministério Público avaliar. Contra dados e informações concretas e sérias não há argumentos” – Alex Strey, contratado pela empresa para fazer a divulgação e defesa do projeto do aterro sanitário em Viamão.
Seis perguntas
O que será a CGA Figueiras?
- Uma central de gerenciamento ambiental de resíduos domésticos e da construção civil.
Será apenas um aterro sanitário?
- Não. A CGA contemplará também uma Central de Triagem e Compostagem, Usina de Geração de Energia, Centro de Referência Ambiental e Viveiro.
O empreendimento trará riscos?
- Não. Todos os mais modernos sistemas de controle e monitoramento estão previstos para proteger o meio ambiente e a saúde das pessoas.
Por que está sendo estudada a Fazenda Montes Verdes?
- Após criterioso estudo de alternativas locacionais, a Fepam identificou a área como ambiental e legalmente adequada. Mesmo assim, estudos detalhados estão sendo realizados e apresentados ao órgão ambiental.
Toda a fazenda será ocupada por resíduos?
- Não. Apenas uma menor parte receberá resíduos, sendo que mais de 60% da área receberá reflorestamento com plantio de espécie nativas, o que contribuirá também para a revitalização da fauna e da flora locais.
O empreendimento trará benefícios ao município?
- Sim. Geração de emprego e renda, economia e geração de impostos, apoio à coleta seletiva e compostagem, recuperação ambiental local com plantio de espécies nativas, melhorias na infraestrutura local e do entorno, e programas de educação e conscientização ambiental para escolas, entidades e comunidade em geral.
Para saber
Como será – A Central de Gerenciamento Ambiental Figueiras será uma unidade de tratamento e valorização de resíduos, atendendo às exigências ambientais para garantir proteção ao solo, ar e das águas, por meio de:
- – Camada de argila compactada
- – Manta de polietileno de alta densidade (PEAD)
- – Manta de geocomposto bentonítico
- – Manta de geotêxtil
- – Camada de argila de proteção mecânica
É promessa – Haverá sistemas para controle de odores e proteção das águas superficiais com a captação dos gases e do chorume do aterro:
- – Encaminhamento dos gases para uma estação de queima centralizada, controlando odores, neutralizando a poluição do ar e gerando créditos de carbono
- – Coleta e acondicionamento do chorume em lagoa impermeabilizada e coberta, e estação de tratamento de efluente
- – Implantação de sistema de drenagem superficial para a coleta das águas das chuvas
Do site Brasil de Fato – 1
Segundo Iliete Citadin, coordenadora do movimento “Não ao Lixão”, os moradores e movimentos ambientais não foram convidados para participar do evento (de terça, dia 17, na Câmara). Afirma que, assim como esse, estão sendo articulados outros encontros com a população do entorno da área escolhida para implementação do projeto onde promovem a desinformação. “Temos realizado audiências públicas onde convidamos representantes dos órgãos públicos para se manifestarem, só que eles nunca se colocaram presentes ou responderam ao convite. Eles não querem diálogo transparente com a população. Querem fazer encontro às escuras como em um que fomos na semana passada, de última hora, para levar desinformação e tentar convencer a comunidade. Mas nós estamos presentes e realizando o trabalho de informar, não vamos deixar esse crime ambiental passar”, afirma a ativista.
Do site Brasil de Fato – 2
Alexandre Bugin, diretor da ABG Engenharia e Meio Ambiente, empresa responsável pela elaboração do estudo de impacto ambiental, afirma que só vieram a público (a empresa) após liberação da Fundação Estadual de Proteção Ambiental (Fepam) para dar continuidade ao processo de licenciamento da Fazenda Montes Verdes. “Precisávamos ter a aprovação da primeira etapa do Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e Relatório de Impacto Ambiental (RIMA) dado pela Fepam há poucos dias para virmos a público, liberados agora para aceitar a convocação da Câmara. Isso não significa que foi dada a licença. Apenas viabiliza a continuidade nos estudos, o prosseguimento do processo de licenciamento, com a escolha do local do empreendimento feito pela Fepam após rigoroso estudo técnico”, afirma.



