Sankofa Viamão | Escravidão na África e no Brasil: saindo das comparações superficiais

A conversa de hoje centra na questão de conceitos, mais precisamente no conceito de escravidão. Muito embora a palavra costumeiramente remeta à população negra, o conceito de escravidão é europeu, originário do latim falado no Império Romano, principal idioma que deu origem ao português. Pois o Império Romano, como vários reinos da antiguidade, fez uso do trabalho escravo no seu vasto território. Evidentemente, a maior parte dos escravos do Império eram buscados fora dos seus territórios e das suas diversas províncias. Como o Império Romano tinha suas fronteiras distantes, boa parte dos escravos eram trazidos da Europa Oriental, região que era habitada por povos eslavos. Da palavra eslavo surgiu o termo escravo que utilizamos no português.

Ultimamente, com o advento de uma historiografia de resgate sobre a negritude no Brasil, surgiram também textos e obras que abordam uma visão de senso comum, tentando colocar a culpa da exploração da mão de obra dos africanos nos próprios africanos. Evidentemente, esses textos de senso comum usam a mesma lógica dos filmes de Faroeste, que começam a partir da primeira flecha jogada pelos indígenas defendendo o próprio território, ou seja, uma lógica que faz do indígena e dos escravos (pasmem) os vilões da história. Obviamente são textos (cujos autores não mencionarei para não fazer propaganda) com uma visão limitada da realidade. Dessa maneira, vários desses autores jogam a responsabilidade da escravidão nos negros dizendo que na África já havia escravidão antes da chegada dos europeus e também mencionam que negros escravizavam negros.

É inegável que havia escravidão na África (assim como na Europa, principalmente em Grécia e Roma), mas ela não pode ser comparada com a escravidão mercantil de larga escala executada pelos portugueses no Brasil. Além do mais, assim como o branco europeu faz parte de uma grande variedade de culturas, de idiomas, de religiões e de costumes, o mesmo tipo de variedade ocorria entre os africanos. Ou seja, do mesmo modo que a Guerra dos Cem Anos fez ingleses e franceses brigarem (branco contra branco), as rivalidades entre africanos também existiam. Além do mais, os africanos só começaram a se identificar como negros a partir do momento que eles passaram a ter contatos com os europeus.

É fundamental lembrar de que há inúmeros povos africanos (pigmeus, bosquímanos, iorubás, quimbundos, ibos, ovimbundos, etc.) e algumas vezes esses povos guerreavam e tinham disputas por territórios, o que levava a captura de prisioneiros de guerra (algo parecido com a busca de eslavos para serem escravizados feita pelos romanos). Quando houve o contato com os portugueses, estas disputas foram incentivadas para que as tribos africanas fornecessem seus prisioneiros de guerra para trabalharem no Brasil. Inclusive, alguns africanos acreditavam que os portugueses eram canibais ou vampiros, pois tornou-se comum esse tipo de associação já que nunca tinha sido capturado tantos seres humanos como na época que iniciou o comércio de escravos com os portugueses. Era imensa a quantidade de seres humanos que embarcava nos Navios Negreiros, e isto reforçava as histórias monstruosas sobre os brancos entre os indivíduos nascidos no continente africano.

Diferente da escravidão mercantil do Brasil (com produção de cana-de-açúcar em larga escala em latifúndios para exportação do açúcar para o mercado europeu), a escravidão africana era uma espécie de "criadagem". Pois, conforme estudos do historiador José Rivair Macedo, a escravidão africana não tinha o objetivo de exploração econômica em larga escala, e a perda de liberdade não era completa, já que os cativos permaneciam integrados ao grupo social dos vencedores (MACEDO, José Rivair. História da África. Editora Contexto, 2013. Pág. 101). No caso do Brasil, o filho de escravo era também escravo e ele seguia como propriedade do fazendeiro, enquanto que na África os descendentes de escravos eram tratados como homens livres com direitos na sociedade na qual eles eram integrados, não herdando a condição de escravos adquirida pelos pais.

Portanto, a existência de escravidão na África não deve ser usada como justificativa para quase 400 anos de escravidão africana no Brasil, da mesma forma que a existência de escravidão em sociedades brancas como Grécia e Roma não poderiam justificar uma suposta escravidão da população branca. Precisamos seguir conhecendo tanto a História do Brasil, como também as Histórias da Europa e da África, pois ainda há muito a ser pesquisado e discutido sobre os problemas contemporâneos que são decorrência da construção do Brasil como país.

 

Ígor Andrade Cardoso é especialista em ensino de História e de Geografia.

 

*As publicações nos espaços de opinião são responsabilidades de seus autores e não refletem, necessariamente, a opinião do Diário de Viamão.

 

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