Somos todos Anna Carolina

Anna Carolina dos Santos, 26 anos, não ficou calada e denunciou assédio dentro do ônibus

Essa não é uma história fácil de se contar, mas necessária. Conheça Anna Carolina e o dia em que ela resolveu não se calar

 

Era quarta-feira de cinzas quando Anna Carolina dos Santos precisou mudar a rotina e pegar o ônibus de caminho mais longo para chegar até o serviço. Anna é diarista, tem 26 anos e vive com o namorado na vila Santo Onofre. Com a cidade ainda no ritmo de carnaval, eram poucas as pessoas que a acompanhavam no trajeto. Estava muito quente, era início da tarde e o sol que batia na janela a fez mudar de lugar e sentar nos bancos que ficam nos fundos do veículo.  

Do seu lado esquerdo, três poltronas vazias e um jovem bem vestido, de 22 anos. Anna começa a ficar insegura quando nota seus olhares cada vez mais insistentes para ela. Puxou a bolsa para mais perto e guardou o celular. Em minutos, ela percebeu que o interesse estava longe de ser pelos seus pertences.  

— Notei que ele estava me cuidando demais. Pensei que ele poderia estar querendo me roubar. Mas não, logo entendi que era muito mais do que isso.

Anna fica envergonhada, ajeita a roupa, um macacão jeans que passava o comprimento dos joelhos. Não que isso fizesse diferença. Quando olha de novo para ele, nota movimentos estranhos.

— Comecei a ficar sem jeito. Ele me encarava demais, foi aí que eu olhei de cara feia e vi que ele estava se masturbando. Não acreditei no que vi.

Quando Anna foi se levantar para trocar de lugar e falar com o cobrador sobre o que estava acontecendo, ele mostra o celular para ela. No aparelho estava escrito: “Se não gostou, por que sentou do meu lado?”

— Eu fiquei pasma, muito brava. É um misto de emoções, não tem como explicar o que senti. É apenas vivendo para saber. Ao mesmo tempo em que dá vontade de agredir, sentia nojo medo — conta.

Mas, Anna não deixou que o sentimento de vergonha tomasse conta. Dirigiu-se ao cobrador e, logo, todos os poucos passageiros que estavam no ônibus ouviram o que estava acontecendo.

— Eu pedi para alguém ligar para a polícia e comecei a acusar ele. Em seguida, ele se levantou e começou a dizer que eu era louca, que não o conhecia e não sabia o que estava dizendo, queria me culpar. Como se não bastasse, ele ainda completou: você está se achando.

E é neste momento que outra mulher se levanta e dispara contra o rapaz:

— Ela não é louca. Você já fez isso na semana passada e eu vi.

Pelo o que conta Anna – que depois conversou com mais calma com a outra mulher que a apoiou – esta não era a primeira vez que ele cometia atos obscenos naquele mesmo ônibus.

Com o apoio do cobrador e do motorista, eles chamaram a Brigada Militar e o ônibus parou. Anna fez questão de tirar fotos do homem. O registro do momento, que circula nas redes sociais através de grupos da cidade, virou um símbolo de sua força e coragem.

— Ele começou a chutar a porta por que queria sair. Eu não ia deixar ele se livrar. Fui na frente dele e ele me empurrou na escada em frente à saída. Os outros passageiros e o cobrador o seguraram. A Brigada Militar não atendeu ao chamado. Um dos passageiros lembrou que havia uma delegacia perto de onde estávamos (na Protásio Alves).

Além de registrar o ocorrido na 8ª Delegacia de Polícia de Porto Alegre, Anna entrou com um processo contra o homem.

— Eu não vou deixar passar. Nós mulheres não devemos aceitar isso. Eles acham que é elogio, mas não é. Se outra mulher tivesse tomado alguma atitude na primeira vez que ele fez isso, eu não estaria passando por essa situação hoje. Ontem fui eu, amanhã pode ser você.

 

A comoção dos outros passageiros

 

Uma das coisas que mais emocionou Anna foi a compreensão por parte dos passageiros que estavam junto com ela no ônibus.

— Eles poderiam não ter me apoiado, o ônibus mudou um pouco a rota, ficou atrasado, parou. Mas não, todos entenderam e ainda me ajudaram, isso foi muito legal. Amanhã vou precisar pegar novamente esse mesmo trajeto e espero encontrar o cobrador e o motorista para agradecer.

 

"Estou recebendo centenas de mensagens"

 

Desde que decidiu expor o que aconteceu nas redes sociais, Anna vem recebendo centenas de relatos de outras mulheres. Infelizmente, a maioria ainda não tem a mesma coragem.

— Estou impressionada com a quantidade de mensagens de mulheres me contando o que passam diariamente nos ônibus. A maioria tem medo de se manifestar por achar que não vão ter o apoio necessário. Esta é a primeira vez que passei por uma situação como essa. Realmente é muito difícil agir na hora, mas é necessário.

 

“Não existe um perfil padrão para os criminosos”

 

A delegada titular da Delegacia da Mulher de Viamão, Jeiselaure de Souza, diz que o fato de um jovem de 22 anos cometer esse tipo de ato obsceno não a surpreende. O homem que constrangeu Anna usava uma aliança de compromisso na mão esquerda.

— Não existe um perfil determinado. Esse tipo de homem está presente em todos os padrões sociais e fatos como esse que aconteceram com a Anna são os mais comuns aqui em Viamão. A atitude dela foi a mais correta possível. A melhor maneira de combater atitudes como essa é chamando a polícia e registrando ocorrência. Se não fizer isso na hora, anote o número da linha, peça as imagens para a empresa de ônibus e nos procure — diz Jeiselaure.

LEIA TAMBÉM

EXCLUSIVO – O que diz o jovem acusado

 

Participe de nossos canais e assine nossa NewsLetter

Compartilhe esta notícia:

Facebook
WhatsApp
Twitter
LinkedIn
Pinterest

Conteúdo relacionado

Receba nossa NewsLetter

Publicidade

Publicidade

Publicidade

Facebook