Violência e resignação

– Enquanto ele espancava a mulher para roubar sua bolsa eu corri para o prédio da faculdade. Desse jeito escapei de ser assaltada na parada do ônibus – contou a guria, ainda trêmula diante da violência presenciada.

Ela ainda se recompunha quando um colega se aproximou pedindo um telefone para ligar para casa porque, enquanto esperava o ônibus, em outra parada, dois rapazes o intimidaram com facas encostadas em seu corpo e levaram sua mochila, com todos os seus pertences. Precisava chamar alguém para buscá-lo.

Estudam na mesma faculdade que eu. Era início da noite. Cansados de um dia de aulas, seguiam para suas casas quando entraram para as estatísticas da violência urbana. Não sei quem era e nem o que aconteceu com a mulher que apanhou do bandido. Mais uma que foi transformada em número. A ação desse tipo de assalto é rápida. Só resta ir a uma delegacia de polícia e fazer boletim de ocorrência para poder emitir novos documentos, bloquear o celular e cancelar os cartões de crédito e de passagens de ônibus.

Chamar a polícia na tentativa de que prendam o bandido é pura ilusão. Chegamos a tal ponto de aceitação do absurdo que é corriqueira a exclamação de agradecimento a Deus por serem apenas bens materiais e não a vida roubada, como tantos casos que lemos, ouvimos, presenciamos ou somos vítimas. Sim, poderia ser bem pior, mas isso não pode ser motivo de resignação. Continua sendo violência e impotência.

Talvez encontrem seus celulares em algum ponto de venda em tradicionais ruas centrais de Porto Alegre, onde receptadores desse tipo de mercadoria as revendem por valores irrisórios em relação aos das lojas credenciadas. Distintas senhoras e senhores, que bradam em exasperação contra a corrupção e a violência, acham que estão fazendo um grande negócio ao comprarem produtos abaixo do preço de mercado. Há sangue nas mãos de quem vende, mas também de quem compra. A expressão “sangue nas mãos” não é uma metáfora.

 

 

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