Bolsonaro matou Russinho

Russinho, dois dias antes de ser hospitalizado, recebe a bênção de pastores em seu gabinete | Imagem: PMV

É uma manchete forte, mas é a guerra comunicacional que experimentamos – essa que Jair Bolsonaro já ganhou, com a Cloroquina: há dois dias, o Valor, mais influente jornal de economia do país mancheteou 18% dos brasileiros veem cloroquina como cura da covid; 7% creem no alho, diz Ipsos.

Peço perdão se constranjo. Preciso. Talvez se tratasse de forma mais sóbria, alguns nem estariam lendo. Mas a morte de uma figura pública, entre vidas perdidas entre estatísticas, grita. O Brasil já perdeu, compatriotas. Caíamos berrando frente aos covidiotas, ao menos.

Valdir Elias, o Russinho, faleceu aos 66 anos. Não estava acamado até 7 dias atrás. Governava uma das principais economias gaúchas, desde que, por suspeitas de corrupção, a ‘Lava Jato de Viamão’ afastou o prefeito de quem era vice, André Pacheco, em fevereiro, como tratei em Prefeito de Viamão, 5 secretários e vereador afastados por suspeita de corrupção.

Russo era um notório bolsonarista. Acreditava no ‘mito’. Esse ídolo de barro que não desiste de convencer o país que a maior pandemia da história moderna da humanidade é uma “gripezinha, um resfriadinho”.

Atleta Russinho não era, mas diferente também não parecia do pai, o irmão ou o avô de muitos que leem este artigo – era ativo e produtivo, todos os dias despachando por mais de 12 horas na Prefeitura, mesmo com suas limitações e más influências.

De alguém, Russinho ‘pegou’ o vírus, que está em Viamão, e em todo Brasil, espalhado pela própria virulência do SARS-CoV-2, que muitos não acreditam, mas também pela frouxidão geral, de autoridades, ele, inclusive, porque sempre que pode abriu o comércio, e da comunidade em geral.

Máscara, o político usava, vejo pelas fotos, já que eu não participava presencialmente da cobertura diária da política. Protegido estava, inclusive, na foto que ilustra o artigo, quando, pouco antes de ter confirmado seu teste positivo para COVID-19, foi abençoado por pastores evangélicos, em seu gabinete na Prefeitura.

A conta desse genocídio, que vai do Russinho, aos famosos e anônimos, não tem como não ser debitada na irresponsabilidade e psicopatia do Presidente da República.

Não só devido às declarações negacionistas, ou ações individuais como ao levantar uma cartela de Cloroquina como um troféu, parecendo um Jim Jones convencendo a ministrar veneno a idosos, adultos e crianças em Jonestown.

É asqueroso o veto presidencial ao uso de máscaras. Passa para seu povo: “Não precisa”.

É inadmissível, é cruel que o Ministério da Saúde não tenha ministro há meses, e seja comandado por um Recruta Zero, um milico responsável pelo almoxarifado, pela ‘logística’.

Como pode, com mais de 2 milhões de casos e 100 mil mortes, o Ministério da Saúde ter investido apenas 3 a cada 10 reais disponíveis?

– Desde o início da pandemia, o governo federal assumiu o comportamento que tem até hoje: de um lado o negacionismo em relação à doença e, de outro, uma ação objetiva contra os governos locais que tentam dar uma resposta efetiva à doença, contra aqueles que tentam controlar a propagação e o avanço da COVID-19. E desde o início tenho dito que se trata de uma política de extermínio – alerta a jurista Deisy Ventura, especialista na relação entre pandemias e direito internacional, em entrevista publica hoje pelo El País Há indícios significativos para que autoridades brasileiras, entre elas o presidente, sejam investigadas por genocídio.

Ao fim, 12 horas depois atiro o superego fora (como fez o assessor de comunicação da Prefeitura Daniel Jaeger, no fim de semana, ao chamar de “bando de filhos da puta” os viamonenses que lotaram o Lago Tarumã no dia em que o hospital de Viamão superlotou) e escrevo esse artigo, porque reputo necessário.

Desde que nesta manhã soube da triste morte desse ser humano querido por tantos, essa sentença que não me sai da cabeça: “Bolsonaro matou Russinho”.  

 

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