Sun Tzu entra num bar em Kherson

“Com acordo ou sem acordo, o General Inverno está chegando – pronto para receber seu convidado de honra Sun Tzu à mesa de jantar”. Recomendamos o artigo do jornalista Pepe Escobar, publicado pelo Asia Times e traduzido por Patricia Zimbres para o 247


O anúncio da retirada de  Kherson talvez tenha marcado um dos dias mais lúgubres da história da Federação Russa desde 1991.

Abandonando a margem direita do Dnieper para montar uma linha de defesa na margem esquerda talvez faça perfeito sentido em termos militares. O próprio General Armagedom, desde seu primeiro dia no posto, havia sugerido que isso talvez viesse a ser inevitável.  

Do jeito que as coisas andam no tabuleiro, Kherson fica no lado “errado” do Dnieper. Todos os residentes do oblast de Kherson – um total de 115.000 pessoas  – que queriam ser transferidos para latitudes mais seguras, foram evacuados da margem direita.

O General Armagedom sabia que essa retirada era inevitável por diversas razões:

Não houve qualquer mobilização depois de os planos iniciais da Operação Militar Especial terem ido para o vinagre; destruição de pontes estratégicas sobre o Dnieper – além de três meses de metódicos bombardeios ucranianos de pontes,  balsas, pontes flutuantes e embarcadouros; ausência de uma segunda cabeça de ponte ao norte ou a oeste de Kherson (ligando com Odessa ou Nikolaev) para a condução de uma ofensiva.

E, então, a razão mais importante: o ingresso maciço de armamentos, aliado ao fato de ser a OTAN que de fato conduz a guerra, o que se traduz na enorme superioridade ocidental em questões de reconhecimento, comunicações e comando e controle.   

No final das contas, a Retirada de Kherson talvez seja uma perda de relativamente pouca importância tática. Politicamente, entretanto, temos aí um consumado desastre, uma vergonha devastadora.   

Kherson é uma cidade russa. Os russos perderam – mesmo que temporariamente – a capital de um território que muito recentemente foi anexado à Federação Russa. A opinião pública russa terá muita dificuldade em absorver a notícia.  

A lista de pontos negativos é considerável. As forças de Kiev garantem seu flanco e podem liberar contingentes para atacar Donbass. O fornecimento de armas pelo coletivo ocidental teve um forte aumento. Os HIMARS, agora, têm o potencial de atingir alvos na Crimeia.   

A imagem passada ao público é horrenda. O prestígio da Rússia por todo o Sul Global foi gravemente abalado. Afinal, a retirada significa o abandono de território russo – enquanto os constantes crimes de guerra ucranianos desaparecem instantaneamente da “narrativa”  dominante.  

No mínimo, há muito tempo os russos deveriam ter reforçado sua grande vantagem estratégica, a cabeça de ponte a oeste do Dnieper, para que ela conseguisse se sustentar – fora o amplamente previsto rompimento da Barragem Kakhovka. E os russos, durante meses, também ignoraram as ameaças de bombardeio da barragem. O que significa péssimo planejamento.

Agora, as forças russas terão que conquistar Kherson novamente. E, paralelamente, estabilizar as linhas de frente, traçar fronteiras definitivas e, em seguida, empenhar-se em “desmilitarizar” definitivamente as ofensivas ucranianas, seja por meio de negociações, seja com bombardeios intensivos.   

É bastante revelador que uma série de figuras dos serviços de inteligência da OTAN, desde analistas até generais reformados, vejam com suspeita a jogada do General Armagedom: eles temem uma sofisticada armadilha ou, nas palavras de um analista militar francês, “uma operação de enganação maciça”.  Sun Tzu clássico. Que foi devidamente incorporada como a narrativa oficial ucraniana.   

Então, para citar Twin Peaks, esse clássico subversivo da cultura pop americana,  “as corujas não são o que parecem”. Se for esse o caso, o General Armagedom estaria planejando exercer forte pressão sobre as linhas ucranianas de suprimento,  seduzi-las a se exporem, para então lançar um maciço ataque russo e levar de barbada.  

Portanto, ou é Sun Tzu ou um acordo vem sendo preparado nos bastidores, coincidindo com a reunião do G20 na próxima semana, em Bali.


A arte da negociação  


Bem, algum tipo de acordo parece ter sido alcançado entre Jake Sullivan e Patrushev.

Ninguém conhece realmente os detalhes, mesmo aqueles que têm acesso à extravagante quinta coluna de informantes em Kiev. Mas sim, o acordo parece incluir Kherson. A Rússia manteria o Donbass, mas não avançaria em direção a  Kharkov e Odessa. E a expansão da OTAN ficaria definitivamente congelada. Um acordo minimalista.   

Isso explicaria por que Patrushev pôde embarcar em um avião para Teerã no exato momento do anúncio da Retirada de Kherson e tratar, com toda a tranquilidade, de questões importantes sobre a parceria estratégica com Ali Shamkhani, Secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã.   

O acordo talvez tenha sido o “segredo” embutido na declaração de  Maria Zakharova de que “estamos prontos para negociações”.  

Os russos deixarão a margem do Dnieper em uma retirada militar organizada. Isso não seria possível sem negociações organizadas de militares para militares.

Essas negociações extraoficiais vêm acontecendo há semanas. O mensageiro é a Arábia Saudita. O objetivo dos Estados Unidos, no curto prazo, seria uma espécie de acordo Minsk 3 – acrescido de Istambul/Riad.

Ninguém está dando a mínima atenção ao palhaço cheirador de pó Zelensky. Sullivan foi a Kiev para apresentar um fato  – mais ou menos – consumado.

O Dnieper será – em tese – a linha de frente negociada e estabelecida.  

Kiev teria que engolir o congelamento da linha de contato em Zaporizhye, Donetsk e Lugansk – como Kiev recebe eletricidade de  Zaporozhye, o governo ucraniano teria que parar de bombardear sua infraestrutura.  

Os Estados Unidos entrariam com um empréstimo de 50 bilhões de dólares mais parte dos bens russos confiscados – isto é, roubados  – para “reconstruir” a Ucrânia. Kiev receberia sistemas modernos de defesa aérea.

Não há dúvida alguma de que Moscou não concordará com nenhuma dessas cláusulas.   

Observem que tudo isso coincide com o resultado das eleições americanas  – das quais os democratas não saíram exatamente derrotados.   

Enquanto isso, a Rússia vem acumulando cada vez mais vitórias na batalha por Bakhmut.

Moscou não tem qualquer ilusão quanto a esse cripto-Minsk 3 vir a ser respeitado pelo Império “incapaz de acordos”.

Jake Sullivan é um advogado de 45 anos com zero de formação estratégica, cuja “experiência” se resume a fazer campanha para Hillary Clinton. Patrushev consegue comê-lo de café da manhã, almoço, jantar e lanchinho de fim de noite – e vagamente “concordar” com qualquer coisa.  

Então, por que os americanos estariam tão desesperados para propor um acordo?  Porque talvez eles estejam farejando que a próxima jogada russa, com a chegada do General Inverno, talvez consiga ganhar conclusivamente a guerra nos termos de Moscou.  O que significaria fechar as fronteiras polonesas com um movimento de flecha longa de Belarus em direção ao sul. Com o fechamento das linhas  de fornecimento de armamentos, o destino de Kiev estaria selado.

Com acordo ou sem acordo, o General Inverno está chegando – pronto para receber com muitos pratos novos seu convidado de honra  Sun Tzu à mesa de jantar.

Participe de nossos canais e assine nossa NewsLetter

Compartilhe esta notícia:

Facebook
WhatsApp
Twitter
LinkedIn
Pinterest

Conteúdo relacionado

Exaustão

Salete havia decidido mudar de vida. Morava num pequeno sítio no interior de São Paulo. Mas pensava que seria mais feliz na capital.Engano profundo. Na capital moravam os grandes vícios.

Leia mais »

Receba nossa News

Publicidade

Facebook