O deputado federal Paulo Pimenta (PT) passou algumas horas na Rua da Praia, no Centro de Porto Alegre, perguntando quem foi o último senador eleito pelo Rio Grande do Sul. Encontrou apenas uma pessoa que soube responder.
– Lembra alguma coisa de boa que ele fez? – insistiu.
– Nada – ouviu de volta.
Foi Hamilton Mourão, o eleito.
A cena, naturalmente, tem um componente eleitoral. Pimenta é pré-candidato ao Senado e conhece o potencial de um vídeo como esse nas redes antissociais. Mas o fato de haver interesse político não torna necessariamente falsa a constatação. Ao contrário. Poucos dias antes, ela encontrou respaldo em números nacionais.
Pesquisa Datafolha divulgada na semana passada mostra que apenas 23% dos brasileiros lembram em quem votaram para senador em 2022. O mesmo percentual se repete para deputado federal e deputado estadual. Já o voto para presidente permanece vivo na memória de 85% do eleitorado.
Três em cada quatro brasileiros não conseguiram citar espontaneamente o nome de um senador em exercício.
Isso ajuda a explicar por que o experimento de Pimenta funcionou tão bem.
Afinal, o problema parece estar menos na Rua da Praia e mais na própria relação entre eleitores e Parlamento.
Quem consegue lembrar dos senadores mais conhecidos normalmente cita nomes que extrapolam a atividade legislativa. Romário levou para Brasília a fama construída nos gramados. Flávio Bolsonaro carrega o peso do sobrenome do ex-presidente. Sergio Moro tornou-se conhecido antes de entrar para a política. Quando o assunto são deputados, aparecem Nikolas Ferreira e Erika Hilton, parlamentares que ocupam diariamente as redes sociais e o debate público, quase sempre em meio a controvérsias.
A lembrança, portanto, parece estar menos relacionada ao mandato e mais à celebridade, à polarização ou à exposição permanente.
Esse talvez seja o maior alerta produzido pelo vídeo de Pimenta.
Um parlamentar que ninguém conhece dificilmente será cobrado. E quem não é cobrado também presta menos contas. A invisibilidade política acaba produzindo um efeito perverso: enfraquece justamente o mecanismo de fiscalização que deveria aproximar representantes e representados.
Millôr Fernandes ironizava que as eleições seriam mais corretas se cada eleitor tivesse um voto a favor e outro contra. Depois completava: “Por falar nisso, por que não apenas o voto contra? O menos votado seria eleito.”
Era humor. Mas os números do Datafolha sugerem um problema bem menos engraçado.
Se a maioria dos brasileiros sequer lembra em quem votou para o Congresso, talvez a pergunta mais importante não seja quem vencerá a próxima eleição para o Senado.
Seja Paulo Pimenta ou qualquer outro candidato.
A pergunta é outra: como cobrar quem representa a população quando boa parte da população nem sequer consegue lembrar quem escolheu para representá-la?
– Cara, ninguém lembra! É como se não tivesse senador. Não tem trabalho, não está presente. Mora no Rio de Janeiro, torce para o Flamengo – provocou Pimenta, sobre o último eleito pelo Rio Grande do Sul, o general Hamilton Mourão.
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