Março estava começando. Não significava o fim do verão. Mas a brisa já soprava diferente.Os turistas e os eventuais visitantes da praia já arrumavam suas bagagens. Voltavam às suas cidades. E o mar, eterno mar do Planeta e dos poetas, continuava do mesmo jeito. Ondas espumantes, fúria e calmaria. Segredos e verdades. A escritora que morava ao longe retomava sua rotina. Tão perburbada rotina que esteve, no meio daquela gentarada toda, tão assustadoramente bloqueada. Agora ela respirava. Escrevia. Tomava seu chá com significativa calma.
Ela sentia uma certa liberdade no ar. Um ar mais leve, mais descompromissado com o delírio de muitas pessoas. Divididas em cifrões, balões e confusões. O trânsito da praia descongestionou. A cafeteria apinhada de gente, agora está mais sossegada. Há lugar para tomar café e refletir sobre a vida. Tão diferente daqueles dias de calor, onde tudo tinha pressa. Agora já não há tanto atropelo.O vento marítimo pode ser sentido em sua intensidade.E a liberdade de criar também.
Mas o mundo neste verão se transformou. Até uma guerra nuclear, antes inadimissivel, agora é falada. Será que realmente existe um cérebro desmiolado,traiçoeiro e violento, que colocaria toda a humanidade em risco? Na mira de um suicídio generalizado? Se todos morrerão, inclusive o agressor, então é o fim. De tudo. Da existência humana. Dos nossos propósitos como criatura humana. De tudo que admitimos e sonhamos. Bom não entrar fundo nesta questão, para não sentirmos lágrimas nos olhos e tristeza no coração.
A escritora, que morava ao longe, saiu de Porto Alegre com um propósito: escrever. Estabeleceu-se na praia e jurava que morreria por aqui. Com a escrita,com o poder da palavra, viveria em paz. Abençoando seus anjos e expulsando seus demônios,que eram muitos. Principalmente os do verão. Perdidos entre tantas pessoas que, como formigas, seguiam em carreirinhos pelas calçadas rumo ao mar. Ao chegar na praia, eles não refletiam, nem meditavam. Ao contrário, sujavam a areia com toda espécie de lixo. Não davam muita atenção à natureza. Queriam comer e tirar proveito do que encontravam pela frente. Mãe Natureza, por certo, chorava vendo isto.
Enfim, iam pouco a pouco indo embora da praia.Para a maioria, uma saudade era sentida. Da agitação, dos shows, dos banhos de mar, dos comes e bebes. Mas notória era a pena. Pena de ter contribuído para a feiura da praia. Com aqueles restos de comida, latas de cerveja e detritos variados espalhados por todo lado. Elas não miravam as lixeiras, estrategicamente colocadas na extensão. Parecia que o propósito era sujar a praia. Não davam nem atenção para com a natureza. Tão absurdamente constrangida com a indelicadeza dos visitantes. (Ana D´Avila)





