Diário de Bordo (6) – Rumo ao fim do mundo: a jornada até Ushuaia

Fotos: Arquivo pessoal/Divulgação

Antes de pegarmos a estrada rumo ao Sul, ainda tivemos uma parada importante. Percebemos um vazamento de óleo no Wilson e, após muita conversa com mecânicos e pesquisas no aplicativo iOverlander, descobrimos o Rick, um argentino de Avellaneda. Ele não apenas resolveu o problema do vazamento, como também trocou a embreagem. Nos recebeu com um carinho imenso e, por alguns dias, ficamos ali, estacionados em frente à sua casa e oficina.

Avellaneda não era um destino turístico, mas é justamente nesses lugares simples, onde a vida acontece fora do roteiro, que sentimos a verdadeira essência de um País. Ali vivemos o cotidiano argentino, com seus ritmos, sabores e hospitalidade. E mais uma vez nos encantamos com a Argentina, dessa vez de um jeito mais profundo e real. Com o Wilson revisado e o coração cheio, seguimos viagem pela mítica Ruta 3, que nos levaria ao ponto mais extremo do País: Ushuaia, o fim do mundo.

O frio começou a apertar. Em Bahía Blanca, reencontramos os viajantes brasileiros que havíamos conhecido em Buenos Aires. A confraternização foi em meio a um posto de gasolina, com risadas, histórias e aquela sensação boa de reencontro. Seguimos juntos por um tempo, compartilhando a estrada e a jornada.

Na sequência, visitamos nosso primeiro parque nacional argentino e vimos, ao vivo, os loros barranqueiros fazendo um verdadeiro espetáculo à beira da estrada. Conversamos com os guias locais e seguimos rumo ao Sul, passando por cidades grandes e pequenas como Viedma, Comodoro Rivadavia, Trelew, Caleta Olivia e Río Gallegos.

Puerto Madryn nos recebeu com um frio cortante. Ali já percebíamos o quanto as temperaturas começariam a cair. Foi o momento de colocar anticongelante no radiador e preparar o Wilson para o que viria pela frente.

A Ruta 3 nos impressionava a cada quilômetro. Estradas lindas, quase desertas, rodeadas por paisagens que pareciam de outro mundo. Montanhas, campos vastos e o céu imenso. Até que fomos surpreendidos por uma nevasca fora do comum, que atingiu parte da estrada e nos obrigou a ficar parados por duas noites em um posto de gasolina. Foram nossos primeiros resquícios de neve. As primeiras montanhas completamente brancas. E a certeza: estávamos chegando perto.

Avistamos nossos primeiros guanacos, enfrentamos chuva, vento e muito frio. A cada curva, a paisagem se transformava e nos deixava sem fôlego. E então veio mais um desafio: para chegar a Ushuaia, era preciso cruzar a fronteira com o Chile e atravessar o Estreito de Magalhães, que corta a Argentina ao meio.

Essa fronteira costuma ser temida pelos viajantes, por conta da rigidez das autoridades chilenas. Mas, para nós, a travessia foi tranquila. Já sabíamos que não podíamos ter a bordo nenhum alimento de origem animal ou vegetal, então estávamos preparados. E assim seguimos.

O cenário se tornava cada vez mais cinematográfico. Estradas cênicas, montanhas por todos os lados, o frio apertando mais a cada quilômetro. Até que, com uma emoção que não dá pra descrever em palavras, chegamos ao nosso primeiro grande objetivo da viagem: Ushuaia, o fim do mundo.

Estávamos ali. Com o Wilson. Com nossa filha. Com tudo o que somos e o que sonhamos.

No próximo capítulo, conto como foram os dias na cidade mais austral do planeta, o que nos encantou por lá, as trilhas, os encontros e o sentimento de dever cumprido ao olhar para trás e ver o quanto já havíamos vivido.

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