Erika Goelzer: É tempo de luto

Hoje Viamão amanheceu de luto, nosso Prefeito faleceu no início da manhã. Digo “nosso”, porque independente de partido, ou de em quem você votou, Russinho era o prefeito atual da cidade. Não acho que ser prefeito torna uma pessoa mais ou menos importante. Mas como chefe do executivo, o prefeito era um representante de todos os Viamonenses. Sua perda representa e reflete a perda de um município inteiro. Representa a perda de cada Viamonense que já perdeu ou ainda vai perder alguém nesta pandemia. 

Não há muito o que se possa dizer diante da dor de quem perde uma pessoa querida. As palavras costumam não dar conta do sofrimento. Resta chorar e torcer que o tempo seja capaz de distanciador a dor e dar lugar para uma saudade mais tranquila, menos desesperada. Só o tempo é capaz de trazer algum conforto. 

Freud já dizia que o luto é um “trabalho”, um “esforço psíquico”, um processo inevitavelmente presente na dinâmica entre os dois polos da existência humana: a vida e a morte. O Covid-19 nos interpela de forma abrupta e escancara o quanto o limite entre estes dois polos é frágil e tênue. O luto advém após uma perda significativa entre uma pessoa e seu elemento de amor. Quanto mais amor, mais dor.
A psicanálise deixa claro que o luto não se limita apenas a morte, mas ao enfrentamento das sucessivas perdas reais e simbólicas durante o desenvolvimento humano, das perdas físicas e psíquicas aos elos de vida que mantemos com o mundo ao nosso redor. O “eu” de quem fica sofre uma espécie de “desintegração” pois o mundo interno conhecido, aquele do qual a pessoa que se foi fazia parte, já não existe mais, deixando evidente a incompreensão que temos sobre o processo de nossas próprias vidas. Não somos donos do eu psíquico e não somos donos de nosso eu orgânico, o Covid-19 está nos lembrando diariamente.

Não estamos seguros. Não sabemos o quão saudáveis somos para enfrentar este vírus. Há muito estávamos cativando a esperança de uma “morte domada” pelos avanços da empreitada científica. Vivemos atualmente na expectativa de que a vacina fique pronta e nos devolva nossa falsa sensação de segurança, já que não há muito que possamos fazer além de usar máscara e lavar as mãos constantemente.

Ofereço meu mais sincero abraço a família do prefeito e a todas as famílias que perderam alguém. Sinto muito pelas suas perdas. Sinto muito pelas vidas perdidas em nosso Município, Estado, País e no Mundo. Sinto uma tristeza enorme pois sei que cada número desta estatística nefasta, possuía um nome, uma história e uma família. Espero que o Deus de cada um, independente da crença, possa proporcionar um pouco de conforto aos corações. E espero, acima de tudo, que o tempo passe rápido, para que possamos logo ter acesso à vacina e para abrandar a dor dos que tanto choram hoje.

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