Erika Goelzer: Hiperatividade

A infância por si só traz uma série de dificuldades, já que é nessa época que passamos pela transição entre a impossibilidade de qualquer forma de autonomia e a adolescência.

Determinar qual o nível de atividade normal de uma criança é um assunto polêmico. Historicamente existe uma expectativa em relação ao comportamento infantil em que se associa um certo grau de agitação, desobediência e bagunça a indicativos de saúde e animação infantil. Entretanto nem sempre é assim.

O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade é um dos transtornos mais conhecidos e diagnosticados entre os profissionais da área da educação e saúde. O TDAH tem sido visto como responsável por grande parte das questões infantis e dos problemas de aprendizagem. As crianças portadoras deste transtorno ultrapassam todos os limites, parecem ignorar as regras de convívio social, muitas vezes sendo consideradas de má índole.

O Transtorno de Déficit de Atenção é caracterizado por uma visível dificuldade de atenção e concentração (que se pode estar presente desde os primeiros anos de vida do paciente); Dificuldade de organizar-se; Esquecimento de informações, compromissos, datas, tarefas, etc.; Dificuldades para seguir regras, normas e instruções que lhe são dadas; Aversão à tarefas que requerem muita concentração e atenção, como lições de casa e tarefas escolares. Cerca de metade dos casos pode apresentar hiperatividade, como movimento incessante de mãos e pés, dificuldade de permanecer sentado ou dentro da sala de aula, fala excessiva, dificuldade em realizar qualquer tarefa de maneira quieta e recatada, impulsividade caracterizada pela incapacidade de esperar a sua vez, interrompendo ou cortando outras pessoas durante uma conversa e também pelo impulso de falar as respostas antes que as perguntas sejam terminadas.

Uma vez que os sintomas característicos deste transtorno podem estar relacionados a uma série enorme de problemas e situações neurológicos, psiquiátricos, sociais, ou por questões subjetivas do desenvolvimento psíquico, diagnosticar que uma criança é portadora ou não deste transtorno não fácil e deve ser realizada com muito cuidado.

Normalmente o diagnóstico começa pela eliminação outras patologias ou problemas sócio/ambientais, possivelmente causadoras dos sintomas. Além disso, os sintomas devem, obrigatoriamente, trazer algum tipo de dificuldade na realização de tarefas ou devem causar algum tipo de impedimento para a realização de tarefas. Devem estar presentes na vida da pessoa há muito tempo, normalmente desde a infância, antes mesmo dos sete anos.

Para a psicanálise não é possível pensar na atenção de forma autônoma. Pelo contrário, é preciso pensa-la em uma articulação onde o inconsciente direciona os investimentos no mundo externo. Deve-se ter cuidado com uma tendência atual a considerar todos os problemas da infância como Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. Nem sempre o que uma criança agitada precisa é de medicação.

A medicação quando necessária traz benefícios, porém ela não substitui a constituição psíquica. Há uma série de crianças que apresentam semelhanças e que não são portadores deste transtorno, mas que por uma série de razões, estão colocadas em situações onde os limites estão dificultados e seus sintomas representam uma problemática subjetiva e própria de sua história.

Na dúvida deve-se procurar ajuda profissional que poderá diferenciar as situações e indicar qual o melhor encaminhamento e forma de tratamento. O tratamento psicológico mostra-se eficiente tanto nas situações em que o transtorno não está configurado (trabalhando não apenas com a criança, mas auxiliando os pais na conduta mais apropriada para com o filho), quanto auxiliando o tratamento medicamentoso propiciando que o paciente possa dar novas significações a seus sintomas e lidar com suas limitações.

Participe de nossos canais e assine nossa NewsLetter

Compartilhe esta notícia:

Facebook
WhatsApp
Twitter
LinkedIn
Pinterest

Conteúdo relacionado

Exaustão

Salete havia decidido mudar de vida. Morava num pequeno sítio no interior de São Paulo. Mas pensava que seria mais feliz na capital.Engano profundo. Na capital moravam os grandes vícios.

Leia mais »

Receba nossa News

Publicidade

Facebook