Fui a um clube de striptease

Janeiro de 2017: o mês em que conheci um clube de striptease. Esse dia foi um daqueles em que você fala para seu namorado "amor, vou sair com as amigas em uma noite de gurias, ok?" e você nem sabe o que te espera. Ok, parte de mim já esperava por alguma coisa. Umas tangas apertadas, barriga de tanquinho e quem sabe algumas tetas. Contudo foi uma experiência muito mais completa que jamais esquecerei.

Estávamos quase chegando, só faltava retocar o batom e dar a última olhadinha na make através do espelho de um carro estacionado na rua. Eu já havia passado muitas vezes na frente daquele clube, mas nunca imaginei que fizessem festas de striptease ali. Logo quando chegamos, a porta dava de cara com uma escada que subia para o segundo andar. Mesmo longe do palco principal, já pude notar as luzes e me engasgar um pouquinho com a fumaça que vinha de algum lugar.

Certo, eu vou confessar: eu estava bem nervosa. Senti como se eu fosse Norman Bates em Bates Motel fantasiando minha mãe ao meu lado dizendo "isso não foi o que eu te ensinei, Amanda". Quando terminei de subir as escadas tive noção do ambiente. Um local pequeno com mesas e cadeiras, uma copa com a caipirinha mais forte que você vai tomar e um palco do qual você jamais vai se esquecer. Uma música Pop dos anos 90/2000 estava tocando e isso já era o suficiente para eu me sentir em casa.

Havia mulheres de todas as idades, e eu com certeza era a mais nova dali. Acho que vim um pouco arrumada demais. As mulheres estavam vestidas como se estivessem assistindo à novela em casa; como se aquilo fosse super corriqueiro de seus dias e não merecesse um traje especial. Notei que todas conversavam entre si - todas mesmo! Como elas todas se conhecem? Tem muita mulher aqui. Que tola eu de imaginar que mulheres faziam isso uma vez na vida e outra no divórcio. Elas conheciam o segurança, o apresentador, os bartenders e inclusive os gogoboys, mas é conhecer mesmo do tipo "até a próxima, Tiago!".

Perdida em meus pensamentos ingênuos, fui interrompida por uma música brega e bem alta que hoje em dia já não faz sucesso - e que está quase entrando para a Rádio Continental. Uma fumaça atrapalha minha visão e gritos de mulheres entrando no cio tomam conta do ambiente. Um dos gogoboys entra em ação e começa a fazer uma dança que até hoje não entendo.

Até ali tudo ok. As mulheres estavam se divertindo, o gogoboy fazendo seu trabalho, até que ele começa a tirar a roupa. Eita, peraí, ele está tirando um pouco demais... Pode isso, produção? Enquanto começo a ficar um pouco desconfiada, tento manter um sorrisinho no rosto e uma pose à copa como quem acha isso perfeitamente normal e não perdeu a virgindade a pouco tempo.

Vocês se lembram do que eu disse? Esperava umas tangas e tal, mas não nudeza total! Quando eu menos esperava, uma mulher com cabelo longo e vermelho como o fruto do pecado para ao meu lado para comprar uma bebida. Ela devia ter seus 70 e poucos anos, e com certeza era o oposto da velhinha do tricô. Ela olhou para mim e disse "você é nova aqui, né?". "Sou... como você sabe?", Respondi. Com a malandragem no rosto, ela se apoiou no bar e disse "primeiro de tudo, nunca te vi aqui... todas que estão aqui batem cartão. E essa tua cara tentando fingir tranquilidade não engana ninguém". Ela continuou "meu nome é Sol, venho aqui direto e sei tudo o que acontece. Já tomei muito café da manhã aqui". "O quê? Café da manhã?". "Esqueci que tu é novata", ela disse, "café da manhã é uma dança especial só para ti com direito a puxão de cabelo e uns tapinhas nessas bundas saradas".

Sorte minha ter escolhido um local estratégico à copa que era pouco acessado, pois, cada vez mais desnudos, os gogoboys dançavam esfregando seus corpos suados na mulherada, que por sua vez achava isso a dádiva do Nilo. Era marinheiro, policial, bombeiro, cigano e até padre. Depois dessa nunca mais verei padres da mesma forma - acreditem. 

Conheci a Sol, uma mulher que me fez repensar sobre a terceira idade. Eu vi teta, eu vi bunda, eu vi muita genitália. Vi homem gostando do que faz e vi mulher se abanando com a própria bolsa. Vi coisas que não queria ver e que não podem ser desvistas. Bom, pelo menos eu posso sentar a uma roda de amigos e dizer "eu já fui a um clube de striptease".

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