No dia 13 de abril, o Gabinete do Prefeito encaminhou à Câmara de Vereadores o Projeto de Lei 0027/2020. A proposta concede 5% de reajuste salarial para os servidores da prefeitura de Viamão, a título de reposição anual. Acontece que essa proposta de aumento também pretende beneficiar os agentes políticos, ou seja, cargos comissionados (CCs), secretários municipais e o próprio Russinho.
A medida já seria polêmica o suficiente por conta da queda da arrecadação provocada pela crise do coronavírus. Além disso, há a comparação com outros municípios da região Metropolitana, e do próprio governo do Estado. Enquanto Eduardo Leite e prefeitos da volta cortam os próprios ganhos na faixa de 30% - estendendo a medida para seus secretariados - Russinho pratica a insensibilidade de reforçar bolsos já abastados - incluindo o dele.
Não posso deixar de comparar de novo a situação com as merendeiras e faxineiras da Koletar que estão passando fome. Junto a essas 300 guerreiras, agora estão os aproximadamente 200 enfermeiros, técnicos em enfermagem, médicos, agentes de saúde e trabalhadores da saúde mental da Mahatma Gandhi.
Não é oficial, mas a queda da arrecadação por conta da covid-19 teria impactado o caixa da Prefeitura em 50%. É menos dinheiro para demandas que não cessam, como saúde, educação, limpeza urbana, coleta de lixo, e por aí vai. Se restava apenas a metade da receita, imagina como a cidade ficará a partir de agora pagando mais ao alto escalão do governo.
A "preocupação" com o fluxo de caixa - e com o gesto indelicado do prefeito - adentrou o Legislativo junto com o projeto de lei. Já tem vereadores distribuindo vídeos em rede social prometendo não deixar barato. Querem tirar os agentes políticos da lista de aumentos e repreender Russinho por aumentar o próprio salário em época de coronavírus. Mas eu preciso falar que foi exatamente isso que a câmara fez no mês passado.
Para quem não lembra, os Vereadores não tiveram vergonha de aumentar salários em meio à crise do coronavírus. Entre 17 e 20 de março, os parlamentares votaram, o prefeito sancionou e a Câmara pagou. Tudo bem rápido, mas tão rápido que quando a Justiça suspendeu o aumento, a grana já estava nos bolsos de todo mundo. E por lá temos dois agravantes: o aumento foi maior, de 7,31%, e os nobres Edis ainda recorreram da decisão judicial para manter o contracheque mais gordo. É o sujo falando do mal lavado.
Nas duas esferas do poder viamonense, a sequência de fatos é a mesma: garantiram a reposição anual dos servidores do quadro geral - o que é justíssimo, mas se incluíram na partilha do pão. E se compararmos o que ganha um vereador ou o prefeito diante de um auxiliar administrativo, fica difícil respirar, com ou sem covid-19.
Ainda tá em tempo de fazer o certo. Dá para recompensar o trabalho dos servidores sem faltar com a ética. Russinho e seus cargos de confiança podem ser excluídos do projeto de lei. Basta quererem. E quanto aos vereadores, se não for possível revogar os próprios ganhos, que formalizem doações para um fundo de combate ao coronavírus, ou ajudem as serventes e merendeiras. Quando elas recebiam, só percebiam menos de um salário mínimo líquido.
É a velha máxima em prática: "à Realeza, brioches, ao povo, migalhas".
Melhor ainda: mais que abrir mão de aumento neste momento delicado da vida pública de Viamão, poderiam aderir ao corte de 30% de seus vencimentos. Que tal?
Antes de ir para a guilhotina, Maria Antonieta ainda tentou acalmar o povo, faminto por pão, com seus brioches. Foi tarde demais.
Com a palavra, a população.
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