Um ano sem Russinho: Impressões tardias

IMAGEM: PMV/Divulgação - arquivo/DV

Não conhecia a pessoa Valdir Jorge Elias. O que sabia enquanto jornalista, pelo distanciamento que exige a profissão, levava em conta apenas a trajetória política. Mas é inegável que Russinho era, e segue sendo, maior que as urnas.

Natural, portanto, a inesgotável curiosidade e o emaranhado de teses sobre sua morte. Mas creio que o desenrolar entre o dia em que assumiu como prefeito em exercício e o que perdeu a vida para a pandemia pouco importa agora. Todos os ângulos da pessoa pública foram abordados, resta o olhar mais importante: para o ser humano.

Russinho vinha sendo cobrado duramente pela postura diante da pandemia. Sua Administração se portou de forma passiva enquanto os casos e mortes pelo Coronavírus cresciam em Viamão. E esse fato dominou o debate à época.

É unânime entre os que conheciam bem o Valdir: como candidato, como vereador, como morador das Augustas, como pai, como avô, como amigo... ele sempre se saiu bem. No entanto, a certeza some na hora de descrever o prefeito em exercício.

Dormiu vice, acordou prefeito, encurralado por adversários políticos, pelo Ministério Público e pela liturgia do cargo. Russinho não teve tempo para entender o que acontecia ao seu redor.
E tempo é coisa que não volta.

Cobrindo o dia a dia do Gabinete para o DV, fiz muitas críticas ao prefeito Russinho, mas foram os atos administrativos que sempre estiveram em análise. E o histórico de decisões equivocadas preocupava, inclusive quando sua hospitalização se tornou pública.

Hoje acredito que o Russo prefeito era apenas um reflexo da continuidade do poder. Saiu André Pacheco, entrou o Valdir Jorge Elias, contudo, os agentes por trás de quem detinha a caneta seguiram os mesmos.
Por essas coisas da vida, Russinho estava no lugar errado na hora errada.

Seja enquanto profissional, cidadão ou pessoa, a morte de um prefeito marca. É daqueles fatos históricos inesquecíveis. Senna, 11 de Setembro, a queda do avião da Chapecoense... não é preciso puxar muito pela memória para recordarmos onde estávamos e o que fazíamos no momento em que presenciamos ou ficamos sabendo.

A falta de notícias oficiais confiáveis e as informações desencontradas da véspera colocaram o DV em alerta. Fizemos plantão na noite do dia 21 e começamos cedo a apuração no dia 22. Hora a hora, os relatos sobre a madrugada e a piora do estado de saúde de Russinho aumentavam a sensação de que o pior se aproximava.

Ao contrário do que pensam os haters de plantão, jornalista não gosta de dar notícia ruim, mas ele também não escolhe o que vai reportar à sua audiência. Assim, contar para a sofrida comunidade de Viamão que o prefeito em Exercício estava morto, e que essa morte era resultado de uma crise de saúde inédita, teve gosto amargo. Saber antes da família e esperar pela confirmação oficial – sobretudo por respeito à dor humana – é angustiante, nos faz viver parte daquele drama.

O luto coletivo simbolizado por uma faixa preta na porta do Gabinete, o caminhão dos Bombeiros com sirene aberta levando o caixão envolto na bandeira do município e os aplausos são ritos, símbolos que reverenciam o cargo, não a pessoa. Entre homenagens e preocupações com o futuro da Prefeitura, quantos além da família lembraram do homem naquele esquife?

Foi observando o cortejo pelas ruas do mesmo Centro em que Russinho não conseguia caminhar sem parar para cumprimentar os amigos é que me aproximei da pessoa. Repito, conhecia apenas a trajetória política daquela pequena e carismática figura, porém entendo que erros e acertos jazem sob o túmulo.

Que fiquem para a história os bons momentos.

 

IMAGEM: Arquivo da família

 

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