Reportando-se à sua faixa etária, ela achou muito razoável a espera para o atendimento. E a pretensão também. O rapaz do guichê, em alto e bom som, chamou-a pelo primeiro nome: Dona Ângela. Meio sem jeito, ela chegou até o balcão. Ele sentenciou: “Só preciso da sua assinatura para lhe entregar a carteirinha”.
Ângela apanhou a carteira como numa premiação. De posse dela seguiu feliz para umas comprinhas no Mercado Público. Na Banca do Holandês, se fartou de queijos e vinhos. Circulou por outras bancas e parou entusiasmada e faminta, na 40. Queria uma salada de frutas com aquelas bolas enormes de sorvete de chocolate. Saboreou. Depois andou mais.
Atravessou o espaço sagrado central do Mercado. Onde outrora, conta a história, foi território negro. Deve ter sido, pois o Mercado Público foi construído por escravos. Na Banca de produtos umbandistas, adquiriu ervas e um incenso de São Jorge. Gostou da imagem de uma cigana. E de uma guia cinza. Da falange dos pretos-velhos, pendurada no estabelecimento.
Mas em sua mente agora lhe vinha a carteirinha adquirida. Aquela de idosa. Que seria inaugurada em segundos. Ângela morava na Plínio Brasil Milano. Em frente a um Posto de Gasolina. Quase na Volta do Guerino. Na roleta, já dentro do ônibus,mostrou a carteira para o cobrador.
Ele, um moço de tênis e camiseta do Grêmio.Lhe deu as instruções. “Vou liberar a catraca. Agora encoste sua carteira no visor”. Ela colocou a carteira virada. Sua utilização estava sendo inaugurada. E ela não poderia saber do jeito certo de liberar a passagem. Mas passou. Empurrou a catraca com a barriga e passou para o interior do ônibus. Que neste dia e horário, não estava lotado.
Acreditava que andar de carteira de idoso era um símbolo de decadência. Olhando para o número de pessoas que entravam no ônibus e utilizavam carteiras semelhantes, ela mudou de ideia. Viu que pode-se estar idosa e não ser idosa. Foi deslizando entre os demais passageiros que a olhavam curiosos e sentou num banco na janelinha do coletivo.
Vinte minutos de trajeto. Após, desceu num ponto próximo à sua casa. Talvez os passageiros do ônibus e até o cobrador, achassem estranho sua figura. De bolsa de grife enorme, carregando vinho e queijo e utilizando agora, também a carteirinha de idosa. “É necessário desapegar do conforto também”, pensava ela. Diante de tantos problemas de inquietação e aflição urbana, ter uma carteirinha é um prêmio. E não um castigo. Continuou usando a carteira dia após dia. Se achando privilegiada. Estava com 70 anos e não poderia negar isto.





