Tributo à Noll

Ele escrevia. Ele observava. E nesta quarta-feira, morreu em Porto Alegre. Provando que a vida é realmente um sopro imprevisível.

Conheci João Gilberto Noll através do Jornalismo. Ele era calado, como silenciosos são os escritores. Certa feita se isolou na Praia do Pinhal para escrever um de seus livros. Num evento, em Florianópolis, notei seu silêncio. Indaguei: tu falas pouco Noll? Ele respondeu: “Quem escreve  tem o dever de observar. A tudo e a todos. Falar não é tão necessário”. É o que eu tenho feito desde então. Observo muito. E deste olhar, surgem estórias, personagens, ideias, poesias e crônicas. Hoje na sua partida, lembrei deste ensinamento. E posso dizer, que é verdadeiro.

João Gilberto Noll nasceu em Porto Alegre em 1946. Graduado em letras era jornalista e escritor. Recordista do Prêmio Jabuti pois o ganhou em cinco diferentes anos: 1981, 1994, 1997, 2004 e 2005. Entre suas obras estão: A Fúria do Corpo, Acenos e Afagos, Canoas e Marolas - Pecado Preguiça, Solidão Continental, A Céu Aberto, Bandoleiros, Contos e Romances Reunidos,  Harmada, Hotel Atlântico, O Cego e a Dançarina, O Quieto Animal da Esquina e Rastros de Verão.

Logo em seu primeiro livro, escrito em 1980, ”O cego e a dançarina” já demonstrou reconhecimento da crítica e dos leitores. Ele tinha 34 anos e, nesta ocasião  apresentou suas ferramentas de criação: sensações de atordoamento, deslocamento e urgência, às quais  predominam suas narrativas curtas. Uma delas, “Alguma Coisa Urgentemente,” foi adaptado pelo cineasta Murilo Salles em “Nunca Fomos Tão Felizes” (1983). O volume deu ao autor o primeiro de seus cinco troféus Jabuti, além do prêmio de revelação do ano pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) e melhor livro de ficção do ano pelo Instituto Nacional do Livro.

O primeiro romance criado por Noll narra a história de dois amantes desocupados — ele, sem nome, passado ou profissão. Ela, uma prostituta-mendiga. Com carga erótica, algo que se repetiria ao longo de quase toda a sua obra, a narrativa escancara as inquietações e angústias dos dois, naquele que é considerado o livro mais barroco de Noll — e um dos mais prestigiados pela crítica nacional.

Nesta quarta-feira, 29 de março, vítima de um mal súbito, Noll encerra sua brilhante carreira. Pois a morte, fim de todos, chega também para os escritores. Agora seu silêncio é mais amargo. Mais sentido. Principalmente para os amigos e amigas que o conheceram e dignificaram sua obra.

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