Um dos jargões da minha profissão reza que um jornalista não deve fazer parte da notícia. Contudo, voltei às estatísticas. Sim, virei notícia.
De novo.
Ao que importa:
Quem já teve uma arma de fogo apontada para si não esquece. Quem vê uma pessoa querida sob mira feita por mãos trêmulas, quase desgovernadas, precisa lutar para superar o trauma e a sensação de impotência.
No fim da tarde de ontem, pela quarta vez, senti medo. Pela segunda vez nos últimos dez anos, minha companheira, Daiane, teve a vida ameaçada pela possibilidade de uma bala ser disparada. E eu ali, de mãos levantadas, assistindo ao destino com uma proximidade angustiante.
Sem poder fazer nada.
Ela chegava em casa. Trazia as novidades do dia. Só queria entrar e descasar após o trabalho. Eu fazia manutenção nas câmeras de segurança da casa. Pedi a ela que deixasse o carro na calçada.
Fiz a escolha errada.
Enquanto a Daiane recolhia bolsa, telefone e outros pertences, eu, por um segundo, distraí a atenção com um envelope na caixa de correspondências. Foi o suficiente. Não sei de onde surgiu, só vi aquela dupla na frente do portão. Um homem e uma mulher.
Não tinham mais que 21 anos.
- Perdeu! Perdeu! Dá a chave, agora!
Não pediu mais nada.
Eu via e ouvia tudo de dentro do pátio, enquanto a pistola na mão do assaltante, numa espécie de roleta-russa, revezava a pontaria entre mim e a Daiane. Detido pela grade do portão, eu apenas temia. Pedi calma ao homem, enquanto a mulher que o acompanhava já pulava para o banco do carona. Ele, nervoso, seguia gritando pela chave do carro.
Eu tentava acalmar, agir sem nenhum momento brusco.
- Calma! Ela vai te dar a chave.
Ela deu, o criminoso correu. Eu disse para a Daiane ir se afastando devagar. O cara não conseguia dar a partida no motor, acredito que em função do câmbio automático.
Um aumento gratuito na nossa agonia.
O carro ligou, saiu pulando calçada afora. Quase bateu, em função do movimento do horário na avenida.
Nenhum tiro. Era hora do abraço, do alívio por ninguém ter se machucado. Daí veio o choro. De medo, de raiva... de quem flerta com a finitude da vida diante dos olhos.
Será impossível esquecer.
Como se o sofrimento não fosse suficiente, passo a resolver a parte burocrática. Chamo o 190, cai lá em Cachoeirinha. A PM que me atendeu diz do outro lado da linha que “não é com eles”. Passa um número para que eu ligue. Um sargento atende com zelo.
Após, procuro a delegacia de Polícia Civil do Porto Seco. Levo comigo as imagens do circuito de monitoramento. “Fechada para janta, volte após às 21h ou vá até a DP da Mário Quintana”, dizia o cartaz colado na porta. Na segunda delegacia, novo aviso suspenso em fita durex: “Delegacia sem sistema”.
Na DP da Avenida do Forte, enfim um rosto e um pouco de humanidade. O servidor público lamenta por não ter sistema, mas tenta nos tranquilizar. Sugere a 9ª DP, que é 24 horas.
Impactados pela dificuldade comum a quem depende das forças de segurança desse país, saímos da 9ª com a ocorrência feita, mas “ainda pendente de registro” (maldito sistema fora do ar). A gravação das câmeras, “se assim eu quiser”, devo voltar hoje na DP e repassar aos investigadores.
No retorno para casa, silêncio de quem não tinha mais forças para assimilar as últimas horas vividas. Lembro de ter comentado sobre a falta de estrutura nas DPs e de sentir pena dos servidores públicos da Civil. A Daiane confessou medo em relação à chegada em casa.
O receio dela me embrulhou o estômago. Tive ânsia.
Não era a primeira vez, mas foi a primeira no meu portão. É o tal clichê de sentir-se vulnerável justo no lugar onde você pensa estar mais protegido.
Dói ver quem você gosta sofrer.
As imagens não saem da cabeça. Creio que não sairão nunca mais.
Revolta ser brasileiro nos tempos atuais. Pelo conjunto da obra.






