A médica Letícia Ikeda estava certa: a Páscoa chegou, e o Dia das Mães está a caminho

Dias antes de deixar a coordenação do Comitê de Operações de Emergência em Saúde (COE), a médica Maria Letícia Rodrigues Ikeda fez um apelo: 

– Peço que levem a sério e protejam-se. Evitem sair. Tenho notado cada dia mais pessoas nas ruas, por isso, volto a repetir que acreditem na doença, não é só uma "gripezinha". Por enquanto, os números estão baixos, mas não sabemos quando podem subir.

Em 28 de abril, a especialista pediu para que a população seguisse as medidas de distanciamento social, momento em que a cidade já percebia o aumento da circulação de pessoas: após 16 dias da liberação do comércio para a Páscoa, Viamão chegava ao 21º caso confirmado de coronavírus.

Foram 13 infecções nesse período. Antes do domingo da Ressurreição e da troca de chocolates, havia oito notificações positivas. 

A curva começava a subir.

Nas três semanas que separaram 21 de março e 12 de abril, a média de infecções era de uma a cada três dias. Após a Páscoa, a média subiu para um caso a cada 1,2 dias.

A entrada de maio foi preocupante. O governo do Estado e a Administração Municipal flexibilizaram o funcionamento do comércio não essencial no dia 1º, mesma data em que Maria Letícia oficialmente se desligou do COE. Nos 13 dias seguintes, 11 novos pacientes testaram positivo para o vírus.

Infelizmente, não houve arreficimento da crise. São 21 pacientes contaminados em 22 dias de maio, cinco apenas nesta sexta-feira, contra 22 casos positivos nos 41 dias iniciais da pandemia em Viamão (21/3 a 30/4). O avanço do contágio em maio é de 96%, mês que também guarda a triste marca da única vida perdida até aqui.

 

Dados de 21/03 a 23/05

 

Entramos neste sábado (23) no dia 64 da crise de saúde no município, com 43 pessoas contaminadas, sendo 25 curadas, e 11 aguardando resultado para saber se têm a doença. São 203 notificações das quais 149 foram descartadas. Até aqui, em nenhum momento ficamos mais que seis dias sem uma nova confirmação. Outro dado impactante é que nas primeira duas semanas, foram registrados dois pacientes positivos. Nos últimos 22 dias, foram sete contaminações atestadas por semana. 

 

Dados de 21/03 a 23/05

 

A Maria Letícia Ikeda estava certa em pedir cautela, mas nem Russinho, nem o povo escutaram. E a situação só piorou desde então, dentro e fora do Comitê de Operações de Emergência.

Cansada de falar sem ser ouvida, a médica pediu o boné. E a população perde pela falta de profissionais competentes na gestão técnica da crise. No COE, assim como acontece com os decretos que Russinho assina sem ler, o controle dos números é insuficiente. Os boletins epidemiológicos, que nunca são assinados, são incompletos, e pior, trazem dados imprecisos. Os responsáveis pelo documento acrescentam pacientes recuperados num dia, retiram no outro, confirmam casos e desconfirmam depois. As vezes, nem a soma entre notificados, confirmados, recuperados e em recuperação bate.

Falta transparência na divulgação desses boletins. Enquanto Porto Alegre fornece de modo detalhado idade, gênero, condições clínicas, se havia doença crônica preexistente, o hospital em que estão internados e o bairro em que residem os pacientes, Viamão deixa seu cidadão no escuro. Pior que alegar sigilo para não repassar as informações é vazar esses mesmos dados a veículos de comunicação da cidade escolhidos por alinhamento político ou envolvimento partidário com a Administração.

A estratégia do silêncio adotada pelo comitê ajuda a causar pânico entre os moradores da antiga capital, sem falar que reforça o discurso negacionista de que não há motivo para preocupação. Após muita insistência do Diário de Viamão com a Prefeitura, o COE passou a liberar o número de pacientes recuperados um mês após o início da pandemia no município. Esse número de cidadãos curados é constantemente cobrado pelos leitores e anula a sensação de que só é divulgada a contabilização de doentes. Da mesma forma, há três semanas cobro a liberação de informações do coronavírus por bairros. E, adivinhem, só um veículo local recebeu…

Não há clareza sobre qual é o protocolo de ação para evitar um crescimento ainda mais expressivo do contágio. A cidade tem 15 leitos de UTI que estiveram sempre lotados nas últimas semanas. O Estado prometeu 10 leitos para Viamão que não se sabem quando entram em operação, e não se escuta a Prefeitura sequer falar sobre o assunto, quanto mais cobrar a disponibilidade. O cidadão escuta que não tem ninguém hospitalizado no município, ou que há no máximo um, e entende que a situação está tranquila, enquanto Porto Alegre absorve nossa demanda.

Conversei com a família do idoso da Cecília que morreu com a COVID-19. A dor faz com que ainda não queiram dar entrevista, mas soube através de um parente da vítima que nenhum familiar foi testado para a doença, e mais, sequer foram orientados sobre o isolamento. São seis filhos, uma viúva, netos, sobrinhos, gente que sofre a perda e se mantém isolada de forma voluntária, por ter consciência dos riscos para outras vidas. Passados 12 dias do óbito, o COE não fez um telefonema sequer para monitorar a saúde dessas pessoas.

Teste não falta. Pelo menos é o que o secretário Glazileu Aragonês afirmou há poucos dias na Câmara. Segundo ele, Viamão tem 1,5 mil testes disponíveis. Então, por que não testam?

Nesta semana tivemos o afastamento de 46 pessoas da secretaria de Administração após uma servidora da pasta testar positivo para o vírus. A Prefeitura não aplicou um teste sequer, mandou todos para casa ficar em isolamento por 14 dias. Aliás, todos não, quatro continuam no prédio atendendo. Por que a servidora com a suspeita não foi afastada antes? 

Tem mais casos. Um servidor na Informática aguarda resultados de exames. Assim como aconteceu na Administração, a convivência com os demais colegas não foi interrompida.

Na Obras, a esposa de um servidor apresentou sintomas, mas ele não foi dispensado. No Hospital Viamão, conforme confirmei com a direção, uma médica está afastada após ser infectada pelo vírus. 

No SAMU, onde as equipes denunciaram sérias dificuldades para obter proteção individual, três profissionais testaram positivo para coronavírus e estão afastados. Dois deles não residem em Porto Alegre, por isso, não são contabilizados como casos locais. Um foi para a conta de Cachoeirinha e outro para os registros oficiais da Capital.

Tecnicamente, temos "45 casos positivos em Viamão". Mas o papel só conta residentes no município.

A ausência de luz sobre as ações da Prefeitura como um todo contribui para a ação de grupos independentes, Como o Comitê de Monitoramento e Resistência denunciando problemas e ocupando o vácuo deixado pela gestão municipal. Do bolso e com ajuda privada, pagam até carro de som para orientar as comunidades mais necessitadas de bairros carentes.

Coisa que a Prefeitura não faz.

De volta aos números, há que se esclarecer uma morte ocorrida em 20 de abril. Segundo o Comitê de Monitoramento e Resistência denunciou e o Diário de Viamão apura, uma idosa que faleceu no hospital local teve seu óbito resgistrado como causa a COVID-19. No dia seguinte, consultei o COE, que negou. O Estado até hoje deve a resposta. Mas a Central de Informações do Registro Civil – CRC Nacional mantém até hoje este registro. Pode até ser que o documento tenha sido emitido antes da confirmação por exame clínico, mas um mês depois, não foi corrigido?

De novo, quem explica?

 

 

Este é um longo e triste resumo de dois meses da pandemia em Viamão. Em síntense, a Páscoa deu a primeira puxada na curva para cima. E a falta de ação, infelizmente, não ajuda na redução. Claramente ainda estamos longe do chamado pico de contágio, e a partir desta semana os registros passarão a espelhar os números pós-reabertura do comércio, especialmente do fim de semana de compras do Dia das Mães.

Não é possível esperar que os números parem de subir por mágica, ainda mais quando se administra uma crise repetindo discursos políticos do presidente, como fez o secretário Aragonês, ou assinando decretos apenas para se garantir juridicamente, como faz Russinho. Se não fosse o Ministério Público, os números seriam, certamente, piores. E olha que os estudos estimam que o contágio é 12 vezes maior que o oficialmente registrado no Estado.

 

Números de uma Guerra:

23/05/2020

Brasil: 330.890 casos 21.048 mortes

Rio Grande do Sul: 6336 confirmados, 176 mortes

Viamão: 43 casos, uma vida perdida.

 

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